A primeira.
- Poeta dos Jardins
- 22 de mar. de 2021
- 3 min de leitura
A primeira vez que escrevo algo significativo direto da conexão entre a razão e a sensibilidade, é como uma porta aberta para escrever pela primeira vez outros sentidos e sintomas de raridade. Assim, a primeira parte de cada verso que quer significar muito mais que uma simples palavra, apresenta a realidade que não pode ser apenas dita em nosso cotidiano, por isso, cada palavra escrita é a primeira oportunidade de saborear o encontro importante entre quem escreve e quem lê. São poucas as pessoas que possuem a coragem de responder aquilo que escrevemos, e compreendo este movimento como um processo que é determinado pela pouca oportunidade que as pessoas se dão em conhecer-se e abandonar o próprio ego, para reescrever novos enredos.
A primeira arte é conectada com o valor da liberdade por causa do gesto que as pessoas encontram em si e transforma os desafios em maneiras de compreender e relatar os próprios passos na vida. O início é um lugar de aprendizagem, e a primeira forma de expressão é o percurso atento ao aprendizado. Justamente por que existem versos que se desencontram para reencontrar em outro momento da vida com um sabor mais apurado e simples. É impossível as pessoas não sentirem umas as outras, mesmo com as energias adversas que se exibem. É neste contexto que a validade da primavera, do principado, do principal, deriva a importância de se colocar no percurso de entendimento e compreensão.
A primeira partilha que motivou a escrever versos, deu-se em olhar atentamente a falta e a ausência mais essencial das pessoas que me inquietavam desde a infância. As mudanças de lugares e cidades que passamos na vida, nos fazem observar diversos elementos e tentar entendê-los a luz das vivências. E as pessoas dormindo nas calçadas, muitas vezes sem o direito a um prato de comida, um aconchego e a oportunidade de um colo para auxiliar a cura de dores e sofrimentos, tendo como representado o alcoolismo, as drogas e principalmente o que a sociedade denomina equivocadamente de marginalidade, reside como migalha e porção da primeira impressão que meus versos poderiam ler algo diferente do que sempre foi me dito tradicionalmente. A tradição de ocupar lugares de poder, caminha na direção contrária na simples atitude de estender as mãos, e meus versos não querem as pompas dos palcos, mas sim a mão estendida ao romântico que é o eterno andarilho bêbado buscando um lapso de paz em um mundo tão mecânico.
Talvez eu não tenha nessa vida ainda passado pela experiência andarilha de colocar meus versos e minha viola na sacola e caminhar por aí sem rumo, justamente por que tomei a fantasia de dias melhores como motor dos meus passos, que por hora vejo que foram limitados e medidos, espontâneos, mas repletos de preces por dias que não pude construir totalmente. A primeira vontade de escrever e tornar meus versos os registros inquietos e determinados em linhas, é referente da noção política de que não adianta eu conhecer e escrever teorias complexas do bem comum, se não sou capaz de praticar no cotidiano dos meus atos mais simples. Talvez, essa forma de organizar o passo inicial da caminhada de aprendizado de escritor, faz com que eu conceba que o tempo verbal não é tão eficiente quanto o grito que mobiliza multidões para modificar que ordena e manipula as leis.
A primeira palavra que escrevo de fantasia é a arte de ser palhaço e poder rir das minhas palavras duras...

Concebo que Longanesi propõe como primeiro ponto de partida o nascimento do sentido das palavras que tenta ser percebida no universo paralelo ao diálogo etimológico das palavras.
Há uma matriz básica quando nos deparamos com o sentido daquilo que pode ser tomado como por primeiro ou primeira, ou ainda a prioridade em nossa vida. A questão é que um universo sem respostas pode demonstrar claramente como os objetos traduzíveis da capacidade de escolher e escrever são dotados de silenciosos significados que só são entendidos quando degustados, ouvidos e compreendidos nas pessoas e nas ocasiões que vivemos. Assim a primeira filha da liberdade também é a viagem de ida e volta que fantasia novas possibilidades de ir e voltar, conhecer e reconhecer, sentir e saborear...
Eis os versos:
Pedir um pão é amargar o destino
e acreditar na frustrada ideia
de que, tudo tem que ser assim.
É se destruir por completo
e eu sigo o destino,
pois meus destinos são meus sonhos.
E não há destino sem trabalho
se apenas sou remetente da minha vida.
Nunca chegarei a lugar nenhum,
por isso o meu destino é chegar
nem que seja nas portas dos céus
ou de seu coração.
Mas, uma coisa é certa,
não estou comentando como devemos viver,
mas sim como melhorar minha consciência de vida.
Para não ficar perdido
em qualquer remetente
que venha me tirar do destino.
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