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Anúncio do afeto.

  • Foto do escritor: Poeta dos Jardins
    Poeta dos Jardins
  • 28 de dez. de 2021
  • 4 min de leitura

Falar as coisas que queremos dizer e que de fato sentimos, é uma virtude importante e atitude imprescindível. E aos poucos aprendemos em nossas vidas a formatar aquilo que lemos, escutamos e ensinamos. Tabulamos nossas emoções em um processo quantitativo sem atentar para a qualidade daquilo que se recebe e entrega.

A vida é um desafio impressionante, porque nos permite entender que nem sempre teremos a serenidade para responder uma provocação ou um sentimento que muito queremos, mas tentamos esconder. A rigorosidade da vida ante os padrões sociais já faz isso conosco desde os primeiros passos. O que chamam de amor Édipo também pode ser a contemplação de um sol numa pessoa, num sentido, num tato e ainda num modo humano de se sentir afetado. Portanto, anúncio se refere a um processo de comunicação e é por aqui novamente que inicio esta reflexão, por que a poesia é anúncio daquilo que vivemos em um determinado tempo, e que não necessita ser datado como agora, passado, ou ainda quem crê em outros passados e futuros. Talvez os romances e poemas sejam a única forma tautológica possível de se entender algo, por tentar escrever algo como se fosse um processo eterno de dar voltas e voltas em torno daquilo que se sonha ou deseja.

Anunciar afeto não é exigir afeto, mas é determinar ações, símbolos, caráter e principalmente ação de amor, carinho, cuidado ou amizade. O afeto aqui não pode ser tomado como violência, e por mais que muitos afetos no cotidiano tenham este significado, aqui quero atentar para a capacidade de estar livre consigo e sem cobranças. E este é o afeto real, não o ideal! A realidade nos permite escrever a própria maneira de sentir, entender e conduzir o universo dos afetos, e que implica diretamente na prática da sexualidade.

As poesias contém muito desta tentativa de buscar anunciar afetos reais, espaços censurados por seres que buscam no afeto um ideal moral que não condiz com a própria vontade vital. E nesse universo de literaturas sobre o afeto eu indico a seguinte reflexão: - "Um autor clássico é alguém que todo mundo deseja ter lido, mas que ninguém deseja ler". (Mark Twain) E está como clássico porque anuncia um tipo de afeto que muitas pessoas não tem condições de ler e sentir, ou são oportunizadas para tal diálogo, que é o anúncio feito a partir do cultivo da cultura. Nesse momento em que um personagem acadêmico chamado Pierre Bourdieu chama de Capital Cultura e que muito nos serve para refletir como se anuncia os afetos no cotidiano.

Há uma exclusão do universo dos afetos que corresponda a identidade das pessoas, justamente pela necessidade de muitos grupos ou classes imporem suas regras e noções de afetos, não anunciando os afetos, mas exercendo a obrigação dos afetos. E nesse sentido, há uma circunstância clara de violência a liberdade de cada ser. É oportuno também deixar claro que o livre arbítrio não é o tema principal, mas se de fato a pessoa consegue sentir o que significa ser impedido de realizar seus desejos, a partir de um árbitro moral comum, que não seja seu próprio coração. Fica o seguinte questionamento: - Como e porque é importante amar o próximo? Há uma riqueza profunda em doar mais e cobrar menos, justamente porque na reciprocidade existem preços que não são tratados pelo ordenamento material. Mas, pelo conhecimento específico do universo dos sentimentos e dos desejos.

Aqui há um lugar específico que é o valor da amizade, e este insere na vida de cada pessoa o anúncio dos afetos com uma gratuidade que as pessoas não se dão conta. A amizade é a primeira prática clara de que a conjugação do possuir em todos os tempos possíveis não substitui os períodos de confiança, mesmo que este seja dialogado com palavras duras e verdadeiras. Ou seja, anunciar os afetos é entender que: - "Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem. Caso contrário os honestos, simpáticos, e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta". (Laureen Maran)

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O universo dos afetos está ligado a forma como cada pessoa sente a realidade de cada uma. Porém, de fato não podemos escrever sobre previsões e abreviações dos sentimentos, apenas constatar que este campo é mais real quando estamos dispostos ao diálogo e ao fato de conhecer a vida do outro. Para amar bem, é preciso se amar bem.

Caso não seja esta a prática, é possível que o desequilíbrio dos anúncios cotidianos dos afetos tenha um papel importante para ocultar e romper qualquer diálogo. Lembrando que os olhares e expressões corporais dialogam cotidianamente com o que chamamos de afeto.

A segurança está na confiança das pequenas coisas, nas simples práticas e principalmente na capacidade de escuta!


Eis os versos:


"Vemos a todos, e todos nos parecem inocentes 
e ao mesmo tempo decifram todo o desejo inocentes
e que estão a nossa volta. 

Por isso, soltamo-nos ao vento como uma folha sem rumo, 
pois na maioria das vezes 
não contamos com nosso sentimento, 
mas com o sentimento dos outros".

"Conquistar significa amar e poder demonstrar seus valores, 
não significa possuir valores alheias, 
pois se este existe 
se chama domínio, propriedade e ganância".

"Vamos amar todos os nossos corações, 
viver capacitados e entender todas as fases dos sentimentos, 
por isso vamos amar, 
conhecer um mundo novo".

 
 
 

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