Aroma da luta.
- Poeta dos Jardins
- 11 de fev. de 2021
- 4 min de leitura
Sinto-me bem com o cheiro de luta e inicio esse texto falando do aprendizado pessoal, íntimo e poético que aqui quer ser de abertura. Uma gota de luz que se abre na luta da minha mãe que me colocou e lutou para continuar o percurso da vida. O aroma de luta inicia em cair e levantar, em entender que a vida também é feita de adversidades e de perdas de pessoas que amamos. E quando falo das perdas, não me refiro a paixão da existência de desejar o próximo nas primeiras etapas da vida, mas de forma pessoal, a forma como a existência foi interrompida das pessoas que me foram referência nas primeiras compreensões de vida. O aroma da luta para alguns tem sabor salgado do suor da vitória e do sorriso largo, mas aqui partilho o choro forte e a dor sentida de dentro porque a origem da própria matriz não respira e o coração que te afagou desde os primeiros instantes de vida deixou de pulsar. Enfim, o aroma da luta nesse texto vai nesse percurso pelo caminho da saudade, das referências que tiveram um ponto final abrupto, mas quando resgatados promovem significados diversos e com o sentido de uma luta que precisa uma certa revolução. A revolução de nascer com asas e a necessidade de voar com as canções selecionadas em discos na mochila, ou os sabores das primeiras aventuras nos cantos da boca.
Portanto, o aroma de luta nessa perspectiva está ligada a memória, a janela longa de um veículo que me levou as viagens tão distantes de onde nasci e onde pude conflitar novas referências para quem sabe poder me encontrar. Senti odores e aromas, e aqui não quero descrever sobre odores, por que na etapa de fugir da matriz que dói pude perceber de longe que o aroma de dor se tornou o odor de uma lágrima que persistia não cair de verdade, mas prender-se por culpa. Quando sair de casa precisa ser um processo de reencontro consigo mesmo, significa que este reencontro não é tão simples assim. O aroma de luta também significa chorar de verdade, enxugar as lágrimas, pesquisar palavras de força e poder versar os próprios sofrimentos para que se possa ensinar e vivenciar a prática da felicidade.
Outro aroma de luta é a ideologia, como atitude não vulgar de colocar em ato aquilo que refletimos e pensamos como potência e ato. É neste sentido que a ciência da luta também se torna essencial, por que a reflexão é uma característica que nem todos os seres humanos estão dotados, e por aí se descreve a capacidade de colocar o sentido para poder se sentir útil na própria existência. É dentro deste sentido que não conseguimos nos sentir úteis sozinhos e precisamos do outro e outra para mobilizar mudanças capazes de fazer sorrir mutuamente as pessoas que são desprovidas de ter acesso a felicidade. E nesta caminhada da vida o aroma da vida é um prato de comida, uma moradia digna, o alimentar a vontade de conhecer coisas diferentes e principalmente parar com a necessidade de massacrar o próximo e próxima com as próprias mazelas que ninguém é obrigado a aturar. Claro que Marx é poeta e tem que ser citado, por que aos trabalhadores, criativos, sensitivos e gastadores de vida, tudo pertence. É nesta etapa que o aroma da luta pode ter sabor de vitória e derrota, porém o aroma da luta é o que vale, porque seu cheiro exala a história e escreve no livro do brilho das pessoas que observam a justiça, a capacidade de repensar, refletir e usarem seus teleéncefalos para uma coisa útil, praticar o que refletem.

O aroma da luta exige preocupação, e atenção ao próximo. Por isso a frase de Zamora se encaixa como uma antítese e principalmente uma ironia, porque não é preceituar nessas linhas como cada ser humano deve ser em luta e legado de vida. O que aqui se tenta descrever é a capacidade que temos de desenvolver modos para partilhar com as pessoas o compromisso para não se conformar com a normalidade da dor e das desigualdades.
O aroma da luta continua, por que quem produz o aroma da luta nunca é sozinho, e esse sentido humano de saborear o que não se pode tocar muitas vezes, é o belo de poder utilizar todos os sentidos disponíveis para caminhar e principalmente doar a vida.
O aroma da vida pode até ser bipolar, mas antes de tudo ele é quantas vezes possível capaz de orientar e desorientar a própria necessidade, num singelo momento de sentir a própria existência atrelada a necessidade coletiva. O olhar da classe, nesse sentido é o aroma de luta e uma essência humana, por que não se vence de ser com gratuidade o verso da vida que motiva ser e se conhecer profundamente. Uma vida sem luta não vale a pena!
à luta
eis os versos -
"O sopro vem,
e com ele o aroma mais puro e belo que existe,
pois me embriaga numa fragrância sem igual
e me deixa como uma palavra homônima
diante dos teus apelos.
Por isso, peço te que dizime minha memória
e se convença que agora meu olhar arde
e meu olfato angustia a doçura evidente".
"N'um homem o ponto de partida
é quando lhe avisam onde parar".
"Sobre nossas leis a luz,
sobre nossos atos as leis,
sobre o nada os nossos atos
e sobre nada, sobre".
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