Dias simples de amigos
- Poeta dos Jardins
- 16 de abr. de 2020
- 5 min de leitura
Gostaria de iniciar esse texto recordando da música 'Amigo Velho' da banda Falamansa em que em uma parte da letra há a expressão: "Eu sei você faria o mesmo". E recordando os rabiscos de agenda é que percebi quantas pessoas se fizeram amigas neste percurso de 16 anos. Contanto, a função da caminhada da vida é uma possibilidade de conhecer pessoas e aprender como se caminha melhor. E aí há a presença do certo e errado na proporção que as coisas se apresentam na vida, por isso: "Vencer é uma porta aberta, perder é escolher a porta novamente".
E uma vitória ou conquista de um objetivo aprendemos que o que fecunda uma caminhada não é a solidão, mas o movimento de partilha e também de organização pessoal. Os dois movimentos caminham para a pratica da simplicidade bem como para atenção do que realmente nos toca. Nesse sentido é necessário viver os dias com simplicidade e na recordação do tempo de vida os tempos de ócio eram os melhores. Nestes tempos de isolamento social e distanciamento das pessoas a valorização daquilo que foi feito com o auxílio das pessoas é o que mais se apresenta como presente e espiritualidade. Sim, a espiritualidade é uma forma de conexão que propõe tanto quanto sentir uma força transcendente, bem como a presença das pessoas que aprendemos a gostar e admirar.
Não objetivo tipificar os amigos e as amigas que tenho porque julgo com a maior ênfase que em grande maioria as pessoas que me cercam são simples. Algumas precisam de pompas e honrarias, mas poetas que gostam de flores sempre trazem as relações pro lugar simples da terra que precisa ser fecundada para germinar uma boa relação. Amigos de infância com posturas políticas divergentes também continuam amigos e este fator é o mais engraçado de todos porque as relações que construímos de mútuo auxílio não são desfeitos tão facilmente por algumas paixões que nos cabem durante a vida. Existem amigos que nutrimos saudades justamente pela presença, alegria e partilha que exercemos durante a vida. Já outros amigos ficam apenas a lembrança porque já não estão mais vivos, mas foram testemunhos de plena simplicidade e liberdade. As pessoas que consideramos amigos são simples como as estrelas que brilham neste espaço repleto de cumplicidade e valores.
Em uma boa parte da vida fiz um papel de amigo que por votos me comprometi ser conselheiro e companheiro de pessoas que precisavam de palavras e práticas no caminho da espiritualidade, cito aqui esta fase do passado porque aprendi muito com ela, justamente porque aprendia quando as pessoas (em especial a juventude) partilhava a realidade de vida. Pessoas que partilhavam a vontade de morrer e vivas tentavam encontrar forças para acontecer simplicidade no ambiente em que viviam, outras pessoas que sonham e que depositavam na minha figura uma palavra significante para poder construir seu próprio caminho. Algumas outras pessoas que escreveram cartas com intensos desabafos e esperando cartas que pudessem trazer minha presença. Os dias em que isso aconteciam não eram badalados e tampouco marcados como feiras, festas e eventos, era apenas uma casa com cerca mas com uma conversa bem clara que dizia para os jovens: "as portas estão abertas". Assim, todas as dimensões da vida são preenchidas por amizades necessárias que nos ajudam a conduzir melhores passos na caminhada da vida, seja com palavras ou testemunhos.
A amizade abre portas porque as pessoas são capacitadas a enxergar o que a própria pessoa é incapaz de ver. E nesta fantástica obra encenada por pessoas é que o contato com os sentimentos se transformam em atitudes que levam as mãos a serem estendidas em direção ao valor do apoio. Há muita literatura sobre amizade e como valorizar as pessoas, bem como música e experiências que poderia estar aqui relatando, mas como é um espaço para escrever no ritmo da poesia. Faz-se necessário alertar que as amizades para muitas pessoas são a única forma de viver e até poder se auto conhecer. O egoísmo e a individualidade são forças dicotômicas porque podemos querer vivencia las em diversos momentos de nossas vidas. Mas, a força de ter alguém com quem contar no cotidiano e no caminho da vida é o que auxilia que haja habilidade de perceber o que é se encantar.
O aprendizado mais intenso sobre esses dias simples e a transformação em postura de amizade é quando encaramos uma vida a dois, em que um casamento se transforma em cumplicidade, praticas semelhantes e também diversas discordâncias diante de gostos tão peculiares e pessoais. Este cabo de guerra cotidiano é que transforma as reais amizades em espaços essenciais da vivência. Justamente pela característica desenvolvida da transparência que é captada com a repetição e a rotina da convivência desde o quarto ao banheiro e passando pela cozinha. O sabor do alimento e principalmente uma música que se gosta são elementos essenciais para adequar simplicidade e amizade na mesma linha da vida. Claro que a amizade não se restringe aquela pessoa que casamos, porém deve estar distante dos dias simples o desejo de possuir tal amizade e essência de tal forma que a pessoa necessite apenas ocasiões, como veremos com Mário de Andrade.

As ocasiões são nostálgicas sim, até seria hipócrita não reconhecer como é bom comemorar com os próximos tudo aquilo que a vida proporciona. Todavia, existem profundidades que não acompanham os ritmos de ocasiões grandes e que fazem uma diferença imensa na forma como vamos aprendendo a perceber a vida. As cartas não são mais ocasiões justamente por que são desvalorizadas no cotidiano. E assim percebo que os dias simples em que o correio entrega minhas cartas precisa retornar para o meu cotidiano. Uma amizade que vale a pena também é aquela que agente partilha o pão e as angústias e quando distante possa partilhar a força da palavra no papel bem como na simplicidade de estar pensando naquela pessoa quando se escreve, coisa que as redes sociais nos furtaram faz tempo.
No meio da semana é que sempre encontrei as conversas e diálogos mais profundos da vida, é em casa recebendo amigos é que a boa conversa fluiu e as relações foram se tornando mais que necessárias, essenciais.
e o poema?
"Meu amor nunca se chama rosa,
e não foi cultivada em contos de fadas,
ela sim apenas me olha".
E nesse vai e vem de mensagens
"a desgraça é par de uma nova era
e singularidade do passado das pessoas que se vingam",
com cartas rasgadas, mensagens apagadas.
"É só o coração que primeiramente sente os sonhos e a verdade".
"Loção de altura e capacidade de proteção,
só o olhar inocente pode fabricar".
uma carta, um e-mail, um sinal,
"como o sonho pode questionar um mundo inteiro?
se as habilidades desenvolvidas diante do tempo,
excluem o pensamento íntimo de todos nós".
E dentro de nós, selo, carta, sentimento,
"é verdade que tudo o que somos condiz aos passos
e aos pensamentos íntimos que lapidamos durante nosso amadurecimento,
porém isso tudo envelhece".
"Não é apenas o som da minha boca que ecoa no verso de uma página misteriosa de valor,
nem o meu olhar diante das desigualdades presentes no mundo.
Mas, sim o urro cantante do vento
que sopra minha alma e me despedaça um som fino".
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