Há grito no tempo
- Poeta dos Jardins
- 21 de mai. de 2020
- 3 min de leitura
O ar sorrateiro adentra a existência e preenche a mecânica da carne nova que tenta nascer para o mundo e para a existência convencionada biológica e essencialmente filosófica. E nesta disputa das coisas que colocamos nomes podemos escrever sem escrever, cortar sem ferir e principalmente repetir o que sentimos. O grito é o som que por hora pode ser provocado pelo ser humano, mas o grito é emitido também pelo meio em que vivemos. Este texto não está para a vida como os decibéis para o som que não gostamos e temos repulso. Ele se encontra no meio do vento que por vezes reverbera sons distantes e próximos.
Este grito marca a necessidade de expressar quem se é e principalmente o que se sente e nesta toada as coisas que adentram a alma descansam num sopro e numa fala que observa a capacidade de acontecer. A voz da existência e principalmente a fala que precisa ser escutada não possui em si outro sintoma que marcar presença no momento e o tempo é o que especifica esses raros gritos.
O poeta é esse ser que desvencilha o embrião das próprias vísceras para desprender da carne a essência da vida. E a cada verso dito, expresso ou escrito na vida permite compreender a mudança de consciência e sentimento na pratica da vida. Por isso, existe grito no tempo que mesmo preso dentro da garganta humana pode ser expresso no olhar e na atitude cotidiana. O grito caracteriza a conduta, o desejo e principalmente a capacidade de ouvir e reproduzir a existência e sua interface de mudança.
Algumas coisas precisam ser gritadas por que infelizmente as práticas da vida nos levam a reproduzir sem reflexão os atos mais belos e principalmente o principio de renascer. É neste processo que a fórmula de gritar serve para pode expressar o que há de mais sincero dentro de si e ao mesmo tempo no universo que memorize essa força da palavra mesmo na intensidade.
Quem escreve também denuncia o sofrimento de seu tempo, quem entende política também grita forte no tempo para marcar a própria forma de protagonizar a história e nesses gritos cotidianos entendemos que a felicidade é também um caminho que se exige a pratica do grito para colocar pra fora as dores e as agruras da existência. Por isso, ao escrever com fala forte e sentido de denúncia e luta as pessoas escrevem histórias de justiça. Os protestos e coros de justiça permitem entender como é necessário encontrar um caminho que se escute a necessidade de realizar poesia e grito ao mesmo tempo. E o universo que grava o grito, também permite que o sentido seja lido na humanidade que presta atenção neste grito.
Essa atitude não figura como um personagem detentor da verdade absoluta, mas um construtor de uma realidade cabida dentro do texto e contexto da existência. A consciência e o que surge como fruto desse exercício precisa ser ouvido e nesse sentido "O ruído é o meio convencional estabelecido para superar a voz da consciência". (Pearl S. Bur) E nesta contestação dos paradigmas históricos do que aprendemos a construir em nossas vidas, o grito é o ato simultâneo da capacidade de traçar a própria existência. E como a proposta do tempo é feita pelos cotidianos gritos da luta e resistência pelos valores, a própria história se constrói assim.

Os gritos presos na garganta fecundam um novo lugar na humanidade em que o lugar de fala precisa ser domado de espaço. Portanto, assim que as falas humanizam a relação de simplicidade na força do que é dito, revelam a proporção da condução das coisas que são desejadas e queridas.
Assim o grito é um caminho de encontro com a justiça quando este também denuncia a opressão, a violência, a falta de humanidade e tenta acordar a humanidade para o encanto dos valores essenciais da sociedade de quem apenas sente. E ao interpretar o grito como um fato se dá o verso.
"Vence somente, aquele que reconhece
que o desafio ainda deve ser alcançado".
"No mundo de estratégias eu quero ser
a Rosa dos Ventos para me orientar
gritar a própria consciência
longe das convenções dos homens
e perto dos caminhos que a natureza e o vento me guiam".
"Um sopro íntimo diz
que no deserto da vida existem
tempos que ecoam as palavras
muito mais dúvidas
do que num deserto de verdade".
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