Mais um ciclo.
- Poeta dos Jardins
- 7 de fev. de 2020
- 5 min de leitura
Não tenho pressa para escrever coisas que possam parecer óbvias, mas já antecedo que nem tudo deve ser tão simples quando alguém se coloca a escrever palavras que remetem a ações abertas. Aqui também possui um sentido semelhante de poder encontrar se em diversos percursos da própria vida, assim como as frases soltas que estão escritas neste lugar.
A pronuncia das sílabas no ato da leitura também exerce influencia significativa no processo de escrever o que se é. Justamente pela atitude que determina no próprio sentimento a necessidade de acessar o que há de melhor nas outras pessoas. Escrever pode parecer em um primeiro momento um monólogo frustrante, mas com o passar do tempo e com a amadurecência das palavras podemos observar que estas representam muito mais o que observamos do próximo do que de nós mesmos.
O poeta é aquele que faz os versos representarem janelas infinitas para qualquer sentimento que invade o pensamento e anseio das pessoas. Ou seja, "devo falar da liberdade mesmo sabendo que ela ne liga para mim", mesmo que eu não seja livre para tentar a partir das minhas palavras criar uma mágica da qual faça a outra pessoa realizar meus escrupulosos desejos e vontades e não a vontade e anseio de si mesmas. Nesse sentido o ciclo se recicla quando entendo que muitos dos versos que escrevi refletem que de fato não sei ouvir o próximo ou próxima. Apenas sei ouvir o que me convém e capto aquilo que me emerge de prazer.
Esta agenda de 2004 é emblemática porque foi escrita durante um processo de mudança e na época eu me via em um término de um relacionamento, encerramento do ensino médio e também o início da caminhada na Vida Religiosa. Sim, o ciclo de hoje é bem diferente daquele passado que eu ainda esperava para vivênciar como seria o barato de tentar viver uma vida santa. Assim, também há pecado em julgar-se santo quando as palavras de liberdade apenas servem para imprimir sentido para aquilo que fazemos no cotidiano, mas estas atitudes diárias são repletas de significados quando o poder da opção pelo que se pode fazer na vida invade as próprias atitudes.
Explicado o contexto, o texto fica mais fácil de ser compreendido penso eu. Justamente pela necessidade de entender que toda mudança, todo início de um novo processo exerce um processo significativo de dor e sofrimento. E tendo como base a própria necessidade de se encontrar é que o cotidiano se faz como verso solto e que tenta entender a necessidade da própria existência. É neste embojo que consigo encontrar sentido para escrever sobre o ciclo como uma forma de encontro e não de busca. Ao buscar constantemente ser feliz, os ciclos se fazem encontros com o próprio eu nesta noção enraizada não só na própria individualidade, mas também na maneira de como se sente o próximo e se expressa a partir dos sinais dos outros.
Portanto, "vivos ou mortos, todos nós estamos sempre sangrando os erros em nossa inexistência". Esta sentença pode parecer fatídica, triste, negativa e todos os adjetivos depreciativos possíveis, mas antes de tudo reflete a autocrítica que poucas pessoas fazem de suas próprias atitudes e também do seu pensar. Nesse sentido a fantástica necessidade de se ler e escrever se dá quando fazemos processo em conectar o sentido das palavras com aquilo que podemos tomar como passo concreto para a mudança. Por exemplo, eu gosto muito de comer massa e ainda estou trabalhando esta necessidade de comer derivados de farinha de trigo como pão, macarrão e outros. Outro exemplo é a necessidade de descrever o amor sem escrever a palavra amor, há um ciclo que precisa ser feito após o estudo de tal atitude e compreensão das coisas. Mas, há muito amor em que prepara o pão e assim a poesia é cuidado e comida boa pode ser gostosa quando damos valor a ela. E o que esta confusão de assuntos tem a ver com o ciclo? É que o poeta tenta dar exemplos confundindo o próprio coração e não a consciência.
Por isso, a inexistência é a criação fecunda de tentar não olhar de fato para a necessidade da autocrítica que produz ciclos. Muitas pessoas esperam entrar em ciclos, outras se prendem a datas e eventos para que o ciclo aconteça. Entendo que assim como o poema é escrito o ciclo também se escreve, se constrói e principalmente se inicia quando o próprio sentimento existe para ser vivido e partilhado. É o retrato da parte da canção que segue: -

Os ciclos são feitos de escolha e observar como a beleza se manifesta em nossas vidas é um sinal de que os passos podem ser dados com mais convicção. Sempre haverá o desejo de que um ser angelical do sexo feminino com um objeto real possa fazer um movimento e falar palavras mágicas para que o que desejamos aconteça. A eterna metáfora do ventre que fez a maior mágica humana e sobrenatural que foi colocar um ser humano para existir. A fada canção pode ser também as incontáveis lembranças das canções que nossas mães cantavam para dormirmos. E em muitos casos essas canções se tornaram traumas porcausa da real situação em que cada fada pode passar e transmitir amor no ciclo dela.
Assim, a poesia é um canal que contém muitos acessos para poder fazer processos de escolha e por momento este não necessita ser erudito. Tanto que poetas boemios, romanticos, políticos e literários estiveram muito mais impregnados no cotidiano que nas entranhas das bibliotecas. O ciclo do poeta passa pela biblioteca, observa a rua e volta para a biblioteca... Entretanto, se dá em casa e também nas periféricas leituras que muitas pessoas não conseguem enchergar.
Luis Melodia já canta "eu bem-te-vi" e de tanto observar as coisas mais belas da vida consegui separar o que tanto fez se sofrimento e transformei em poesia. Ao menos no último dia de janeiro de 2004.
"Falo demasiadamente,
pois minha maior expressão
deve ser sim".
e ao ser instigado...
"Falar de amor é muito fácil, difícil é realizá-lo".
"O corpo vigia um homem
que de instinto cultua os valores insuportáveis".
do desejo por ti...
"Longe ecoa o silêncio
e o barulho da paz".
ao olhar entendo,
"É preciso esperar o momento certo
e não deixar o tempo passar em vão,
como água que corre pelas nossas mãos".
cabisbaixo
Ei-lo o ciclo,
"É devastador para um coração,
o fato de incansávelmente tentar cativar algo impossível".
e "Sonhamos com as flores,
pois elas colorem melhor as nossas histórias".
Por isso escrevo pra ti
para a mágica acontecer
"O argumento de defesa de um ser
é classificado como diplomacia".
disfarçado de desejo
Observação: "A liberdade de expressão é indispensável em uma sociedade democrática". (Rafael Molina). Esta frase foi extraída de algum periódico que não recordo agora, mas apresenta a assinatura deste pensador. Porque coloque esta frase no final? Justamente por estar em 2020 e ter diversos governantes que estão censurando qualquer forma de pensamento, desejo e expressão. Atualmente temos uma ministra sem poesia, sem as faculdades mais apropriadas para agir pela diversidade e pelos direitos das mulheres e das crianças. Neste ciclo atual temos representantes governamentais que sugerem cuidado e auto cuidado. Neste ciclo atual podemos ter contato com pessoas que poderiam investir mais em trabalhar sua sexualidade, sua personalidade e principalmente a visão de mundo mais libertadora que a reprodução de estereótipos e endemias cotidianas na vida das outras pessoas. O novo ciclo poético não pode ser pensado fora deste ciclo tóxico de informações que são difundidas cotidianamente.
É preciso ser mais sensível as poesias e as músicas para aguentar a violência de tempos tão repressores e sem sensibilidade em que os erros são tratados de maneira tautológica que pedagógica.
Certamente o periódico trouxe esta frase neste contexto para não lembrar de pensadores como Marx, Rousseau e Habermas, mas sigamos realizando e construindo ciclos.
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