Pensamos nos outros, antes dos outros pensar na gente.
- Poeta dos Jardins
- 4 de jul. de 2020
- 5 min de leitura
Gostaria de perguntar algo simples. Como sentir se realizado numa relação recíproca? Com doses de autoconfiança ou egoísmo, podemos pensar na possibilidade de sempre querer algo em troca. Porém, mesmo na sentença repleta de desprendimento é fato que o ato de engolir seco acontece quando mesmo a pessoa não querendo nada em troca não consiga ouvir uma palavra ou gesto de gentileza.
Pensar nos outros é poder aguçar a atenção e o olhar sobre as coisas que acontecem no cotidiano. Esta atitude é admoestada na escola, na religião, na família e em todas as instituições sociais que nos fazem entender que não vivemos sozinhos neste universo. E longe de descrever a natureza das relações, me atento mais aos olhares das pessoas que inserem sentidos nos pensamentos mútuos. A natureza é fantástica, mas não pode condicionar o pensamento humano, pois este divaga e alcança imensuráveis maneiras de se entender as coisas. Exemplo de pensar nos outros é aquele dos vizinhos das grandes ou pequenas cidades que mesmo com 42cm de paredes separados ou 41km de distancia, o pensamento voltado ao outro é aquele que determinado pela cultura e o modo de reconhecer confiança, constrói ou destrói o diálogo.
Mas, meu objetivo em escrever sobre este tema é poder comparar a estação do ano em que a própria natureza se reconstrói e define para compreender as outras pessoas. Olhar para o próximo é preocupação e principalmente o tato do cuidado que é tão necessário para a própria existência. Pensar nos outros, antes dos outros pensar na gente é uma atitude de aprendizado, de uma relação que acredita no valor da caminhada conjunta e principalmente naquilo que o Outono pode ensinar como uma estação que exerce mudanças na natureza e também no modo como podemos enxergar as coisas.
O outono não se preocupa com a reciprocidade por que nos ensina com segurança a necessária mudança das tonalidades, temperaturas, características e principalmente as formas conquistadas. Passamos por outonos em nossas vidas quando pensamos em amar e cuidar de outra pessoa, justamente pelo que nos cabe como pessoas que cultivam valores. Algumas mudanças são complicadas de serem feitas na vida, mas são possíveis quando não nos preocupamos com aquilo que as pessoas tem a nos ofertar.
Por isso, neste texto e distante das analises culturais densas de uma relação de reciprocidade, o dar se caracteriza pelo receber e a maneira como a pessoa recebe nossas ações e iniciativas já é o suficiente para entender que não necessitamos apenas pensar nos outros como um modo de defesa. O retribuir é importante na cultura e no modo como muitas identidades observam até o caráter da pessoa ou sociedade, porém a retribuição aqui é gratuidade e deve seguir este caminho.
Ninguém obriga outra pessoa de seguir o mesmo caminho que o seu, e assim a seguinte sentença dá sentido a esse pensamento anterior da retribuindo. E quando este acontece no modo gratuito e não especulativo nos deparamos com a seguinte citação: "Duvidar de tudo ou crer em tudo são duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas de refletir". (Henri Poincaré). Ou seja, pensar nos outros mesmo antes que os outros pensem em nós não significa tomar posturas extremas de caráter, basta cultivar valores que nos incentivem a refletir as relações de diálogos que temos. Por isso, a comparação do outono e do pensamento nos levam a necessidade do diálogo.
Neste sentido os diálogos dos versos poéticos são francos com o que sentimos e principalmente com o que queremos dizer para o leitor. Muitas pessoas já me perguntaram se estava escrevendo tal poesia ou verso para alguma pessoa específica, e é difícil responder esta pergunta justamente por que no momento de pensar no outro ao escrever muitas vezes não lembro apenas de uma pessoa. Várias imagens e sensações se apresentam nos diálogos que temos com o próximo e por aí se entende a extenção daquilo que se quer dialogar.
Nos distanciar dos diálogos nocivos é muito importante para pensar no outro antes que esse pensamento favoreça um interesse específico. E nas agendas da vida pude me deparar com a seguinte frase: "A dieta é o sedativo sociopolítico mais poderoso na história da mulher". (Luis Rojas Marcos). Sedativo reconhecido pela maneira como o discurso de promessas de satisfazer o ato de receber se torna condicionado a imagem que as pessoas fazem umas das outras. Divorciar-se das imagens pré determinadas do outro é uma virtude em tempos atuais, assim como as crianças são espontâneas em sua caminhada de dialogo e verdades expressadas.
Paulo Leminski me auxilia a pensar que na estação da mudança possamos ter o olhar semelhante ao das crianças que são dispensadas de moralmente podar ou defender as próprias posturas a todo momento. As criança pensam nos outros antes que os outros pensem nelas (mesmo os pais), por que em grande escala as crianças demonstram criatividade, curiosidade e capacidade de brincar com a vida sem receber nada em troca.

As duas folhas que caminham juntas na sandália com passos sejam apressados ou não, representam a leveza de conhecer a reciprocidade como um caminho de diálogo. Portanto, não precisamos estar a todo momento afirmando nossas posturas querendo se colocar no sentido de chamar a atenção da vida, sem que está seja pensada como vida mais partilhada e menos conquistada.
Também não precisamos da primeira fase de dialogo das crianças que é a do choro ou de reclamar tudo aquilo que não temos em detrimento daquilo que as outras pessoas desfrutam. Isto se deve mais ao olhar e a forma como as crianças demonstram pensar em nós com amor e admiração e nesta base e conceito coletivo de virtudes poder realizar amor para todos.
Neste sentido a vida é um aprendizado constante e quanto mais podemos observar o que nos cerca, até as estações do ano e poder refletir nossas atitudes que vão de encontro a valores a serem partilhados com o próximo. Teremos um caminho repleto de cores e sem desconfiança e preocupações desnecessárias. A oração é o exemplo mais prático que muitas pessoas dão de pensarem no outro, antes que os outros pensem na gente.
Eis os versos, digo oração:
"Crianças são como flores,
e nós desabrochamos e iremos ao chão,
se não vermos neste jardim eterno,
de onde somos cultivados com o coração".
"O coração é um verso,
e o criador é oração,
se Deus é conosco,
seremos os seus filhos
e sua obra é comunhão"
.
"Mas é preciso ser criança,
brincar com os sonhos e amar os irmãos,
carregar o sol que nos ilumina,
como a cruz que nos encaminha a salvação".
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