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Só com muita paixão é possível.

  • Foto do escritor: Poeta dos Jardins
    Poeta dos Jardins
  • 23 de mai. de 2020
  • 4 min de leitura

     Escrever sobre paixão é fugir do entendimento estereotipado que generaliza esta palavra e o poder deste sentimento em um imaginário afetivo apenas. A paixão equivale a intensidade não somente de humanamente possuir a outra pessoa, mas também conhecer e equivaler as próprias capacidades e caráter em um sentido de realizar os projetos da vida com muita dedicação. E o porquê de escrever isso é que a paixão estereotipada pode se transformar em doença e violência quando se exime o conhecimento de toda a diversidade que versa a sexualidade no exercício da personalidade humana.

     Tendo este ponto de partida, aquilo que sonhamos é possível ser realizado. Claro que escrevo como afirmação porque podemos entender que o ato de descansar permite o ser humano ativar o processo criativo e de desejo que são expressados ao longo da existência com o caráter da paixão. Esta por sua vez pode se tornar caráter de valor quando está ligada a vontade de descobrir e desafiar quem está a sua volta, bem como não impõe as próprias necessidades acima daquilo que é necessidade de convívio e diálogo.

     A paixão dos poetas é dialogada e a do romancista é praticada, portanto ao observar as novelas contemporâneas e as representações sociais da paixão observo que a poesia dialoga com a criatividade elevando a paixão a um caminho mais diverso e criativo quando duas pessoas partilham sua essência. Já nas novelas a paixão genericamente tem seu ápice em uma cama em um espaço de contato artístico, nu e visível de uma dimensão importante da paixão que é a afetividade sexual. Neste sentido a poesia desnuda além do corpo e das roupas convencionadas e íntimas, também faz despir o caráter e o sentimentos que se nutre para poder construir com paixão os projetos e intensão de vista. Enquanto a paixão das novelas a expectativa é apenas para o próximo capítulo. Minha intenção não é diminuir a perspectiva da paixão nos romances, mas atentar que ao dialogar o sentimento de paixão o ser humano pode capacitar este sentido em todas as dimensões humanas como trabalho de sua própria identidade bem como a capacidade de conhecer melhor quem está ao lado.

      De ordem a construir e decifrar a própria personalidade uma frase acompanha este texto e retrata qual sentido podemos expressar o caminho da paixão. "O sonho é a tentativa de satisfazer um desejo". (Sigmund Freud) E este cientista aponta para a necessidade de estar atento aos próprios sonhos para poder planejar melhor o que nossa própria essência pede e deseja. Alguns processos de cura exigem o conhecimento e o reconhecimento das paixões interiores não como castigo ou doença, mas como entendimento mais claro daquilo que falta e daquilo que pode ser experienciado nesta existência. Olhar e sentir as coisas que vivemos e desejar as coisas que também queremos viver é também procurar caminho de realização na paixão e o universo das paixões é necessário e quando reconhecemos a força deste sentimento podemos perceber o quanto podemos ser violentos e conhecedores. A violência se dá no campo das paixões padronizadas e não refletidas e apenas representadas em limitadas versões do caráter humano. Já a paixão que produz conhecedores é aquela que se aproxima da responsabilidade de se colocar como desvendadores e indagadas pela necessidade de conhecer o desconhecido do universo dos afetos, das alegrias, das realizações, das essências e também do trabalho. 

    Um exemplo de paixão limitada e generalizada é quando se realiza numa mensagem de poder simbólico o corpo e a figura da mulher como objeto de desejo. Todos os homens e mulheres necessitam se sentir desejados e desejadas, porém na atualidade a dimensão como se padroniza a paixão por causa dos desejos construídos transformam algumas relações sociais em uma violência generalizada. Ou seja, "durante séculos, as mulheres têm sido espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir uma silhueta do homem com o dobro do tamanho natural". (Virginia Woolf). Aqui fazemos a leitura importante de como a cultura dos desejos e de uma imposição moral nas paixões favoreceu a perpetuação do patriarcado e da atitude machista até na literatura da humanidade. Só com muita paixão é possível romper com a paixão traçada nos rótulos de cerveja e nas estampas de outdoors e propagandas que vendem o corpo e o caráter da mulher como o espelho de um objeto de troca. Com muita paixão as mulheres puderam conquistar no campo político, cultural, afetivo e intelectual como se descreve a paixão e a dimensão de ser livre e poder expressar sua identidade e principalmente os seus desejos.

     Assim a felicidade em descrever a paixão como caminho para conquista política e afirmação das identidades é importante como caminho do poeta. Nesse rumo a caminhada da vida permite estender a paixão com o verbo apaixonar se conjugado em todos os tempos. A realidade em que a vida se encontra é plural e com ela o exercício da paixão a aprendizagem e conhecimento faz parte deste rumo. Contudo, o caminho da posse passa para a liberdade e do poder para o diálogo. E assim a paixão passa do credo inconsciente para a um credo apaixonado que se permite estar livre e na relação de convívio com os próprios sentidos a leitura do mundo em que vivemos faz entender que a paixão só pode ser necessária quando acompanhada da ciência das diversas dimensões da vida.

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Com muita paixão podemos versar a crença com a possibilidade de conhecer as coisas que acontecem. Florbela Espanca fala desse amor exercido em todas as dimensões da vida e principalmente quando a ingenuidade da infância dá lugar a literatura do amor.

Eis o verso:


Se o amor é o único valor que nos traz a certeza de união. 
Por que julgar um homem pela sua forma de amar?
se a paixão é o caminho do sentir se amado...
e a conjugar... 
"A felicidade está em cada coração humano, 
não nos corações alheios, 
julgar é vício das pessoas que sem autonomia, 
tentam provar nas pessoas 
de meras palavras em vão jogadas ao vento".
de saborear corpos e objetivos
"Prefiro sondar meus atos 
do que expô-los aos riscos da vida".

 
 
 

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