Um muro entre nós.
- Poeta dos Jardins
- 14 de out. de 2019
- 5 min de leitura
As palavras são repletas de sentido que impedem que as pessoas transparecerem o que realmente são. Umas as outras, as pessoas persistem em identificar seus passos como um caminho que prescreve a realidade desejada e vivida e também a ilusão daquilo que não pode se transformar em felicidade nas narrativas. Ou seja, a palavra em si é um processo colocado de lado quando as transformações enfrentadas na vida muitas vezes são rápidas e abruptas.
Neste sentido o título desta reflexão vai de encontro não a construção concreta dos altos muros que impressionam a ausência do horizonte visualizado, mas aquilo que se exige atenção porque aqui o muro é justamente o que se ajusta na íris de cada olhar. O contexto derivado de olhar o que quer é primordial para a própria vivência dos próprios adjetivos e vontades, porém encontrar se com o inesperado muitas vezes é desvendar o muro que se dá no próprio olhar justamente por ele estar padronizado.
Desde que as situações apreendidas na vida são instrumentos de disputa e debate, o que se insere aí é o espaço que abre para poder praticar as coisas bonitas da vida. Sim, há uma diversidade que necessita ser preservada, e esta diversa idade dos próprios sentimentos atrelados as reflexões da vida se dão no caminho de tentar não padronizar e desconstruir o olhar já repleto de vícios e preceitos de julgamentos coloridos. Há uma equação muito séria quando não enxergamos o olhar e o sofrimento que pode estar expressando o outro ou outra, e há ai um caminho de distância da sensibilidade humana, portanto, poética.
Os muros da vida contemplam um olhar integral do comportamento humano que se inicia na espiritualidade e passa para a compreensão daquilo que as pessoas falam e expressam também no modus operandi do próprio corpo. Esta relação só aprendi após os 30 anos, portanto muitas das coisas que escrevi, fiz e pude sentir foram desprovidas deste cuidado. Sim, a palavra cuidado identifica a falta de percepção dos muros sensíveis que cada ser humano cria no cotidiano. Eis que escrever se torna uma profecia e falsos profetas falam sem profundidade, mas o poeta escreve e falta e não consegue colocar dentro de qualquer palavra o tamanho do sentimento que transcende o olhar deste muro. São estes muros interiores que nos fazem querer silenciar, mas nos obrigam nos publicizar os sentimentos para que estes sejam lidos mesmo no sentido de se tecer uma crítica ou o desejo de poder quantificar todos os reais momentos de expressão da vida humana.
O poeta Bastos fala da parede que precisa ser ocupada por sons, e seu poema vai de encontro a estas inquietudes que o sentimento faz descrever e reescrever a cada um sentimento não muito maduro na caminhada das pessoas.

O muro cotidiano de nossa vida e também aquilo que conjuga a própria memória da contagem de nossos passos escreve aqui uma sentença significativa do poeta quando traz a reflexão do silêncio e do estar sozinho. Muitas pessoas estranham o silêncio pelo simples fato de abrir espaço para a capacidade de poder se tornar comunicativo com o próprio corpo.
Assim o silêncio é incomodo porque ele atravessa o imaginário humano e cria aquilo que a pessoa já possui em sua razão e seu íntimo sentimento. Nesta relação bonita que o ser humano demonstra sua forte criatividade é necessário entender a importância de observar quais são as paredes fora do corpo que impressionam. E neste exercício trago uma foto da Serra do Rio do Rastro - Município de Bom Jardim da Serra - SC, que possui um silêncio que incomoda e muito.
Você pode estar lendo esta reflexão e se perguntar o porquê utilizo as palavras muro e parede? É porque ambas são processos simbólicos de entendimentos. Eu poderia escrever algumas palavras mais completas para também expressar o que penso sobre estes impedimentos (ignorância, fechamento, etnocentrismo, racismo, homofobia, etc), mas pretendo aqui trazer a dimensão da concentração nas palavras e o poder do qual não pode se teorizar a poesia, mas debatê-la de uma forma que transforme as pessoas em sentimento. Assim, sentir a força das palavras é um caminho sem volta que nos faz perceber os muros presentes nas pessoas, e assim e nós mesmos. Sabemos na metáfora pular o muro que aprendemos a ver e sentir, assim o muro alheio é aquele que sabemos muito bem como se concretiza e como este significa na vida cotidiana. A dimensão espiritual das palavras faz da poesia um caminho forte em que no campo das dimensões afetivas nos aproximamos das pessoas atentas as palavras. O silêncio é presença constante, portanto os muros entre nós exigem que falemos alto, que gritamos nossas convicções para ouvidos e olhos extremamente fechados.
O muro entre nós acontece sempre que alguém se cala e tranquiliza após um debate, um conflito, um desejo e um comportamento que representa significativamente a paz. Numa linguagem mais real e poética destes dilemas quem gosta realmente de você irá fazer observar a quantidade de vezes que o grito é desnecessário e o habitar se no silencio e no barulho na hora certa fazem nos programar a buscar por ser feliz e desprogramar o desejo de encontrar se.
Portanto,
"O tamanho da minha alma é igual a consequência dos meus atos",
e como uma tempestade alvoraçada
são as nuvens do céu que descarregam a vida
e são os homens e mulheres que carregam a morte
solucionar um problema significa criar outro
e nesta indecisão
vivo, logo penso..., penso, logo desisto!
pois, sobressair a ignorância é tempo perdido
ou como uma reflexão...
muito maior que o amor é o que não se sente,
mas sim se vive eternamente
e...
a felicidade se encontra nas entrelinhas das nossas dúvidas e nas esquinas de nossas orações.
Este poema pode expressar as direções e caminhos que podemos traçar nossos próprios silêncios que dão percurso para que as outras pessoas possam organizar suas reais necessidades de criar, porque o silêncio incomoda. Mas, é preciso deixar o coração confiante para que a representação do sentimento e das categorias afirmativas dos valores se transformem em capacidade para poder encher as outras pessoas e os desejos alheios a nós próprios.
Existiram suplicas diárias que puderam descrever a força que ultrapassava até os muros da materialidade do contato humano em espaços que acreditam em um porvir diferente. Quem promete a si mesmo a importância de poder olhar nos olhos e transformar se a si e aos outros faz de si um caminhante para encontrar as múltiplas sensibilidades e demandas da vida. Escrever também é esse processo de entender que muitas vezes o ato de acreditar é necessário para encontrar o silêncio. A presença nesse sentido motiva mais silêncio que barulho e nesse sentido o silêncio das pessoas é o que há de mais forte nas próprias pessoas, o restante é a necessidade de entender o que o silêncio presente fala.
Uma pergunta que poderia ser feita é o versículo deste salmo que segue: "O Senhor surgiu e me salvou, enchendo de vergonha os que não acreditavam em sua força" (Salmo 3,7).
A resposta... os muros..., as paredes..., a obrigatoriedade de sentir se ouvido.
Comentários